quarta-feira, 13 de junho de 2012

Uma reflexão sobre o cotidiano do cidadão na cidade de São Paulo


A VIOLÊNCIA SIMBÓLICA DE CADA DIA: Arquitetura do poder hegemônico ou acidentes casuais?
Esse relato toma por base um acontecimento real vivido pelo autor. No texto tentei buscar relações com estudos realizados no Grupo de pesquisas em Educação Física Escolar da FEUSP / CNPq, no curso de extensão realizado na FEUSP “Cultura Corporal”, nas leituras das disciplinas Educação Física Currículo e Cultura, ministrada pelo Prof. Dr. Marcos neira e na disciplina Gramsci: Educação e Hegemonia, ministrada pela Prof. Drª Carmen Silvia. Considerando também minha experiência de vida como professor da educação básica, morador da zona leste e militante popular.

No dia trinta e um de agosto de 2007, uma sexta feira por volta das dezoito horas e quinze minutos, voltava da FEUSP de mais um encontro do Grupo de Pesquisas em Educação Física Escolar, após um trajeto lento e desgastante de uma hora em um ônibus lotado, cheguei ao metrô Anhangabaú. Apressadamente no rítmo da cidade, desci as escadas e entrei na estação. De primeira vista, ao passar pelas catracas de acesso, fiquei impressionado com o volume de pessoas que se aglomeravam já nas escadas. Agora num rítmo lento, que também é peculiar a cidade (quando pensamos no trânsito, nas filas dos hospitais públicos, na burocracia de alguns órgãos e serviços, etc.), descer os degraus se constituía em um ato de penitência, lentamente a multidão ganhava a plataforma de embarque sentido estação Corinthians / Itaquera, e se amontoaram uns sobre os outros. Fui percorrendo a plataforma e percebendo um clima de animosidade entre as pessoas, muito empurra – empurra, reclamações, tensão no ar. Fui até o final da plataforma na esperança que pudesse estar mais vazia, porém, o clima se mantinha conflitante e nervoso.
Durante aproximadamente uns dez minutos os trens paravam e ninguém conseguia embarcar, assim, pouco a pouco a plataforma ia se transformando em um mar de gente, diga-se de passagem um mar bastante revolto com tendências a tsunami. De repente, uma voz um tanto quanto nervosa surgiu no sistema de som: “Atenção, atenção funcionário fulano de tal, comparecer urgente ao SSO”. A segunda chamada veio ainda mais nervosa, alterada e acelerada, isso me chamou atenção, subitamente voltei meu olhar para o lado que dava acesso a estação e, de forma assustadoura as pessoas começaram a correr em direção ao local em que eu e centenas de outras pessoas nos encontrávamos, em fração de segundos a esteria e o pânico tomou conta da multidão. O local se transformou em um campo de luta pela sobrevivência, as pessoas passavam umas sobre as outras na ansiedade de encontrar uma saída, instintivamente o grupo do qual eu também fazia parte começou a correr com destino às escadas que davam acesso a parte superior da estação (bilheterias / catracas).
Muitas pessoas chegavam ao mesmo tempo, idosos, mulheres (algumas gravidas), crianças e homens, todos assustados e perplexos por não compreenderem o que estava acontecendo, o sentimento era de total impotência diante da situação. Passados alguns minutos de desespero, já era possível conversar para tentar entender o que havia ocorrido, acompanhado de mais três rapazes me dirigi até a mureta de proteção da estação, de onde era possível observar toda a plataforma. Os trêns continuavam a circular normalmente, funcionários do metrô andavam pelo local como se nada estivesse acontecendo, lentamente as pessoas começaram a retornar a plataforma de embarque com objetivo de mais uma vez embarcar aos seus destinos. Percebemos também a presença da polícia metropolitana, que andava de um lado a outro como se estivesse procurando algo.
Após estas observações resolvi fazer o mesmo, desci as escadas na tentativa de embarcar e me posicionei junto a plataforma que já estava lotada. Nesse momento as considerações e especulações gritavam de todos os cantos e para todas as direções. Diziam que duas pessoas começaram a se agredir e iniciaram o tumulto. Outros afirmavam que alguém havia sacado uma arma e começou ameaçar a todos com ela. Ainda ouvi dizer que  teria ocorrido um suposto descarrilhamento de uma composição que vinha da estação República. Porém, nada tinha consistência, permanecendo no imaginário coletivo as dúvidas e incertezas sobre o fato. A única constatação era o semblante assustado, cansado e de baixa estima das pessoas. Algúns trens pararam lotados, não possibilitando a entrada de ninguém, comentei com o grupo mais próximo que o fato merecia uma ação consciente de cidadania, como por exemplo procurar a delegacia da região para lavrar um boletim de ocorrência, visando responsabilizar a quem de direito, na sequência mover uma ação junto ao Ministèrio Público Estadual contra o Metrô e o Governo do Estado de São Paulo. As pessoas riram e indagaram se eu estava de brincadeira.
Novamente a voz surgiu no sistema de som, agora mais tranquila, e em tom de normalidade dava sua mensagem: “Atenção, informamos que por medida de segurança a estação ficará fechada para embarque até a normalização da situação, a cada cinco composições uma passará vazia para facilitar o embarque”. As coisas foram se normalizando, as pessoas se acalmando, os policiais continuavam andando pela plataforma e tudo voltava a seu rítmo “normal”. Por fim, chegou um trêm vazio! Ainda assim o acesso foi complicado, mais uma vez o empurra – empurra se repetiu, foi engraçado e triste ao mesmo tempo sentir o alívio e a felicidade das pessoas pelo simples fato de terem conseguido entrar num transporte lotado, que chegara após trinta minutos de espera. Já dentro do trêm uma moça realizou o seguinte comentário: “Acho que eles deveríam ter fechado a estação a mais tempo”. Então respondi a ela com uma pergunta: “O que você acha mais justo: as pessoas serem impedidas de entrarem na estação no momento que como todos nós necessitam do transporte? Ou a ampliação do serviço nos horários que sabidamente por todos o volume de pessoas é infinitamente maior?. Ela então respondeu: “Realmente você têm toda a razão. É que ficamos tão nervosos com tudo isso que nem paramos para pensar em outras possibilidades”. É peturbador perceber a eficácia desse poder no processo de legitimação dos valores neoliberais que faz com que as pessoas naturalizem os seus dircursos em detrimento das próprias necessidades de sua atuação cidadã.
Me parece que esta sensação têm haver com a lógica de que para um determinado grupo social (esse que se utiliza do transporte público por exemplo), as coisas sempre podem piorar, por conta disso nos acostumamos com pouco ou quase nada e, comemoramos as migalhas que recebemos, mesmo sabendo que os diversos impostos que pagamos é que subvencionam a realização dos serviços públicos que nos são destinados. O trêm partiu e logo chegou a Praça da Sé, também havia nesta estação uma multidão de gente que pacientemente cumpria seu ritual diário. Se conformar pacientemente com a naturalidade dos fatos de que o transporte naquele horário é assim mesmo e pronto! Nesta estação havia um símbolo interessante para nossa análise e reflexão, falo de uma grade de contenção que organiza e ordena o avanço das pessoas para o embarque. Esta visão me reportou a imagem de uma boiada no confinamento, ou passando no corredor de embarque para o abate. É perceptível nesse quadro a conformação e direcionamento dos corpos para um comportamento que se naturaliza por meio da violência simbólica recebida no dia a dia.
É possível inferir claramente que uma determinada ideologia está impregnada na vida social objetivando acomodar certas coisas. De acordo com Chauí (2001), ideologia é um conjunto de idéias construída histórica, social e politicamente que visa ocultar a realidade, e esse ocultamento é uma forma de assegurar e manter a exploração econômica, a desigualdade social e a dominação política. Gramsci (apud Portelli,1977) define a ideologia como uma concepção do mundo que se manifesta em todas as atividades da vida individual e coletiva, ele argumenta que independente da aparente independência dos diferentes ramos da ideologia, eles constituem as diversas partes de um todo: A concepção de mundoda classe dominante.
Neira e Nunes (2006) destacam que dentro desse processo de reprodução cultural o pensamento hegemônico se estabelece na medida em que a classe dominada reproduz ativamente os valores e objetivos de quem domina, sem atentar para os interesses de quem os divulga. Como o processo de reprodução visa legitimar os valores hegemônicos, é necessário estabelecer nas pessoas uma determinada identidade. Para isso, lança-se mão da ideologia, que neste caso refere-se à produção dos sentidos e significados pela maneira que as pessoas vêem o mundo, as idéias e representações que invariavelmente aceitamos e entendemos como naturais (Mc Laren, 1997 – apud Neira e Nunes, 2006).
Voltando a narrativa, os fatos me fizeram retomar as discussões que havia se desenvolvido no grupo. Nesse dia um dos componentes do grupo relatava o desenvolvimento do seu projeto em uma escola pública da rede estadual de São Paulo, ele havia tematizado lutas. Em um certo momento das discussões, outro participante dizia que se lembrava que a tempos atrás, quando ainda lecionava em duas escolas sendo uma pública e outra particular, desenvolveu esta temática e suas percepções na época deram conta de que os alunos da escola pública “aceitavam” melhor a aula, não reclamavam, nem se queixavam. É óbvio que sua fala tratava-se de uma constatação da época, porém, durante seu depoimento outra peofessora se incomodou e fez a seguinte colocação: “ O tema lutas pode ser desenvolvido em qualquer escola, seja ela pública ou particular, não podemos aceitar que determinadas temáticas só possam ser desenvolvidas nas escolas públicas em função das crianças estarem menos amparadas pelas famílias, e por conta disso não trazerem reclamações futuras dos seus pais”. Enfim, as falas forma parecidas com o que descrevi acima. De qualquer forma chamo atenção para o fato de que na escola atuando com os alunos das classes menos favorecidas econômicamente, percebemos maior grau de docilidade, aceitação, dominação. Entendo que é possível relacionarmos essa constatação com acontecimentos como o ocorrido no metrô e tantos outros mais sutís inseridos em nossa rotina.
Me lembro agora de um detalhe importante, voltando um pouco atrás no tempo, mis precisamente no período compreendido entre os meses de julho e agosto, fomos tomados de susto pela crise denominada “Apagão Aéreo”, fato este que culminou com o acidente envolvendo o avião da TAM no aeroporto de Congonhas. As notícias eram divulgadas miuto a minuto, as emissoras cada qual segundo suas próprias oercepções, ideologias e interesses, divulgavam previsões, versões, análises e até conclusões sobre o caso. Porém, em todo esse longo período não me lembro de uma só reportagem sobre as superlotações dos ônibus e metrô que servem as camadas mais pobres da sociedade. Na data da ocorrência do fato que ilustra esse texto, também não percebi sequer uma nota em jornal, TV, rádio,etc.
A esse respeito Gramsci (apud Portelli, 1977), argumenta que fazem parte da estrutura ideológica não somente as organizações cuja função é difundir a ideologia, mas também todos os meois de comunicação social e todos os instrumentos que permitam influenciar de alguma forma a opinião pública. A imprensa e a edição, bem como a organização escolar assumem papel essencial, pois são as únicas a englobar plenamente o domínio da idelogia. O autor também reforça que até mesmo a arquitetura, bem como a composição das casas e os nomes das ruas, também configuram-se em ferramenta da dominação hegemônica. Dessa forma, fica mais tranquilo entendermos por que as estações do metrô sentido zona leste possui um piso emborrachado e no sentido Paulista, além de piso de granito apresenta painéis artísticos em sua extensão. Outro exemplo claro é a conservação dos parques públicos, o Parque do Ibirapuera e o Trianom na Avenida Paulista são totalmente diferentes dos Parques do Carmo em Itaquera,  Santo Dias em Campo Limpo e Chico Mendes em São Miguel Paulista. Mas, todos eles não foram criados e são mantidos pelo poder público? Todos eles não objetivam o bom atendimento da população às quais se destinam? Então por que as diferenças?. Ainda a esse respeito, é possível entender por que as “invasões” do MST têm tanto destaque na mídia, contrariamente as “invasões” da classe dominante às áreas de mananciais e reservas de mata atlântica para construção de casas e condôminios de alto padrão são vistas como benéficas ao progresso e ao desenvolvimento do mercado de capital.
Para Silva (1999) os serviços públicos de educação e saúde por exemplo, não estão no estado lastimável em que se encontram por acaso, ou por que administram mau seus recursos. Estes serviços não possuem os recurssos que deveriam ter por que  a população a que servem, encontram-se alocadas numa posição subordinada face as relações de poder. Por conta disso, os aspectos da qualidade estão ligados a questão de riqueza, e como esta é uma questão relacional. Boa e muita qualidade para alguns, pouca e péssima qualidade para outros. Geertz (1989) nos chama atenção para um questionamento sobre a existência de um homem universal, ou de valores universalizantes. Nessa óptica, nos provoca a refletir a respeito da seguinte questão: que a natureza humana não existe e que os homens são pura e simplesmenteo que a sua cultura faz deles?
A esse respeito e confrontando esta idéia com a discussão em tela , podemos inferir que quanto a universalidade de homem existe acordo com o autor, porém percebemos que existe um poder hegemônico que tenciona homogeneizar padrões de comportamento por meio dos atos simbólicos, por isso podemos também compreender que a cultura nesse sentido também nos aprisiona a determinados modos de ser, pensar e agir. Esses atos de significação aparecem escamotiados e sorrateiramente se inserem em nossas vidas, fazendo com que nos acostumemos com as coisas. E é esse costume que nos conduz ao imobilismo social.
Em relação à legitimação , cabe ressaltar que o papel da educação escolar na produção da hegemonia de identidades e de significados culturais tem sido exaustivamente estudado nas últimas décadas. Várias questões têm sido debatidas para o entendimento do papel político da educação e das suas conexões com o processo de legitimação. Torres cita Apple (1982:1) que expõe claramente esses problemas quando indaga:
Em essência, as divergências se concentram em torno de quatro temas inter-relacionados: (1) As escolas principalmente reproduzem a divisão social do trabalho ou são vias para diminuir a desigualdade de poder e de conhecimento na nossa sociedade? (2) As escolas são “fortemente determinadas” pelas forças ideológicas, econômicas e culturais situadas fora delas, ou apresentam um grau significativo de autonomia? (3) As teorias da reprodução econômica respondem adequadamente aos papéis culturais e ideológicos desempenhados pela educação? (4) O que ocorre realmente dentro das escolas (o currículo, as relações sociais, a linguagem e a cultura são consideradas legítimas?) (p. 171 / 172).

Segundo Neira e Nunes (2006), o currículo forma identidade e legitima determinados valores em detrimento de outros. Esta legitimação do que deve ser ensinado no currículo escolar é definido pelos grupos dominantes não por acaso, mas, sim, pelo firme propósito de perpetuar no currículo práticas hegemônicas que ditam um jeito de ser, de vestir, de jogar e pensar, entre outros.
(...) são as práticas de significação que estão em jogo, pois elas definem a vida cotidiana, suas relações de poder e conotação política, isto é, fazer valer significados exclusivos de determinado grupo social sobre os significados de outros grupos. Essa discussão é relevante no processo atual de globalização e políticas neoliberais que acentuam os processos de exclusão. (Neira e Nunes, 2006,  p. 44 / 45).

Freire (1996) nos adverte para a necessidade de assumirmos uma postura vigilante contra todas as práticas de desumanização. Daí a crítica permanente que faz à malvadez neoliberal, ao cinismo de sua ideologia fatalista e sua recusa inflexível ao sonho e à utopia. Daí também o tom de raiva, que envolve o seu discurso quando se refere às injustiças a que são submetidos os “esfarrapados” do mundo.
Finalizando nosso texto, esclarecemos que objetivamos principalmente registrar a ocorrência do fato para que possa servir de reflexão a cerca da realidade, e dos fatos cotidianos naturalizados em defesa de uma determinada forma de sociedade. Trazendo para nossa prática pedagógica, se faz necessário discutirmos em que medida nossa aulas alimentam esse processo aqui chamado de “violência  simbólica de cada dia”. Esse é o compromisso que temos como educadores progressistas.

Autor: Prof. Silvio Sipliano da Silva

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHAUÍ, Marilena. Oque é Ideologia
Brasília: Ed. Brasiliense, 2001.


FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa.
São Paulo: Paz e Terra, 1996.

GEERTZ, Clifford. O impacto sobre o conceito de cultura sobre o conceito de homem. In: A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Livros técnicos e Científicos editora S.A., 1989.

GENTILI, P.A.A.; SILVA, T.T. (org.) Neoliberalismo, qualidade total e educação.
Petrópolis: Ed. Vozes, 1999.

NEIRA, M.G.;  NUNES, M.L.F., Pedagogia da Cultura Corporal: crítica e alternativas
São Paulo: Phorte, 2006.

PORTELLI, Hugues. A superestrutura do bloco histórico. In: Gramsci e o bloco histórico; tradução de Angelina Peralva, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977.

SILVA, T.T. A “nova” direita e as transformações na pedagogia da política e na política da pedagogia.. in: SILVA, T.T.Neoliberalismo, qualidade total e educação -
Petrópolis: Ed. Vozes, 1999.

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